CARTA DE UM SOLDADO DA I GUERRA MUNDIAL

Nordeste de França, 28 de setembro de 1916

     Queridos pais e amigos,

     Espero que esta carta vos encontre com saúde.

     Encontro-me, como é do vosso conhecimento, há dois anos, a desempenhar funções como soldado nas trincheiras entre a França e a Alemanha. Aqui a vida é muito dura e difícil. Os aviões passam e lançam bombas sucessivas nas linhas defensivas. Muitos dos meus companheiros perderam a vida no último ataque do Império Alemão contra as nossas tropas.

     Os ataques químicos pararam e ainda tenho presente, na minha memória, o último inverno, quando os alemães lançaram químicos numa linha próxima. Felizmente, usamos máscaras e não sucumbimos à carnificina. Foram praticados atos horríveis e eu não estava preparado para os assistir.

     Tenho traumas psicológicos. A morte causada por estas armas frias, de metal, que causam o horror entre estas pobres almas, ainda reverbera na minha mente. Todos os valores que possuía antes desta terrível guerra (Pátria, Honra,) desapareceram dentro de mim. Talvez tenha sido a crueldade e a malícia dos alemães, talvez tenha sido a falta de amor neste espaço que me tornou alguém completamente diferente, para pior. Hoje, eu também pratico atos horríveis, atos inimagináveis, por responsabilidade dos alemães.

     Quero também aqui deixar um desabafo: Serão apenas os alemães os culpados desta guerra? Ou será o orgulho e a vaidade de toda a humanidade?

     Olho diariamente para os corpos caídos dos meus companheiros de todas as horas... que imensa solidão e tristeza se abateu sobre mim.

     Os soldados e apoios estrangeiros trouxeram alimentos e revistas para passarmos o tempo e nos distrairmos, enquanto aguardamos ansiosamente o fim desta guerra cruel.

     Desejo ir ao vosso encontro o mais breve possível, mas considero sempre a hipótese de tal não acontecer.

     Agora o avião chegou. Adeus! Seremos nós os sacrificados. Estranhamente, não me importo mais. Nem os meus companheiros... a desmoralização das tropas é terrível. Repentinamente, voltei ao sentimento de honra e patriotismo que sempre me definiu e, por isso, termino esta missiva, dizendo alto: prefiro morrer aqui e agora do que viver na sombra da desonra e da desgraça.

     Adeus e que esta carta vos chegue às mãos.

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